(Rodrigues Bomfim)
Desejo passar a chave mágica na porta da casa
Dos meus pensamentos problemáticos
Trancafiar todas as minhas frustrações lá dentro
E descansar do lado de fora dessa casa de idéias...
A maioria delas fúteis.
Fechar os olhos e sair de mim,
Com os sentidos destituídos de apreensões!
Imaginar num instante meu próprio corpo espichar-se todo
E submergir bem fundo dentro de uma densa lama gelatinosa
De um mangue frio nunca antes penetrado
Provar da oleosa e pegajosa massa dessa argila acinzentada
Grudando toda a minha pele trigueira
Fechando todos os poros, ouvidos, nariz, olhos, boca...
A face petrificando... Transformando-me num ser não humano
É o meu corpo preso num casulo de pastosa argila santificada
Enterrado por meses inteiros provando
Todas as perturbações atmosféricas.
As transformações seriam tão exuberantes
Quanto o meu próprio sonho...
Então depois de maturar bastante,
Experimentaria um formoso renascer espiritual
Imaginando emergir magicamente,
Brotando do solo argiloso petrificado
Lentamente levitando o meu pesado corpo retesado irreconhecível
Por sobre uma nevoa baixa e densa
Que cobre todo aquele mítico pântano hiperbóreo
Sonhar girando e subindo com impressionante objetividade
Impulsionado pela força de uma fria ventania matinal
Que se faz inesperadamente em volta dos meus pés de pedra cinzenta
Os braços compactados ao corpo
Envolvido por essa dura armadura de lama vitaminada...
E assim para frente emborco sacudindo ereto
Como uma pujante flecha
Para dentro das águas profundas de uma
Baía paradisíaca em forma de ferradura
Resvalando o corpo empedrado
Na água salgada que tira grossos nacos de argila
Deixando a mostra as reentrâncias nuas
Da minha nova titânica fortaleza muscular
Que vai mergulhando ao sabor das águas transparente
Ondas santas que reanima toda a minha alma
Rejuvenescido, me sinto como um poderoso monólito
Emergindo impetuosamente para a superfície dessa magnífica baía
Minha massa corporal fosforescente nascendo
Num salto espetacular de golfinho
Despertar depois de descansar sob o sol da manhã de inverno
Abrir os olhos e sentir uma força estranha de bem estar me envolver
Respirar profundamente, me levantar e experimentar
Uma nova realidade reconfortante
Deixando para traz todo o desassossego do espírito
E a tediosa rotina desgastante
E ver todos os desalentos da minha alma
Por um sereno momento perecido.